Ixé Ygara: por terra e território

Queria falar, numa toada breve, sobre dois livros que li recentemente e recomendo, pois ambos aterram a luta e os pés.

O primeiro é “Por terra e território – caminhos da revolução dos povos do Brasil”, lançado pela Teia dos Povos neste 2021, escrito pelo mestre Joelson Ferreira (agricultor, plantador da floresta do assentamento Terra Vista – BA, ex-dirigente nacional do MST, fundador e conselheiro da Teia dos Povos), e por Erahsto Felício (professor do IFBA, historiador que contribui na Divisão de Comunicação da Teia dos Povos).

Esse livro é essencial para todos aqueles que se interessam ou se engajam nas causas sociais e políticas, pois ele atualiza e localiza a luta, a resistência e a revolução. Atualiza ao colocar no chão conceitos e princípios libertários – de variadas, porém vizinhas, procedências ideológicas, em geral europeias, como o anarquismo e o marxismo – ao lado da tradição de luta e resistência, do pensamento revolucionário e das culturas, ancestralidades e cosmovisões dos povos originários e dos povos da diáspora africana. Ao lado dessas potências, estão os povos do campo e da cidade, igualmente com suas trajetórias e aspirações.

Além disso, há nesse livro dois pontos a serem ressaltados: mestre Joelson é um homem do campo, da lida diária na terra e é muito significativo que parta dele a formulação das ideias, a assimilação dos conceitos e a organização prática e teórica da Teia dos Povos. Não se trata de um intelectual, analisando e interpretando fatos históricos, mas sim de um homem da base dos movimentos sociais. Ressaltar essa característica tão orgânica das ideias inscritas no livro é umas de suas enormes qualidades. Outro ponto é que o “Por Terra e Território” se propõe a olhar justamente para os erros e fracassos das esquerdas e, a partir deles, propor saídas. Em tudo isso, há uma bonita semelhança com a luta zapatista no sul do México.

O segundo livro que recomendo é “Ixé Ygara voltando pra ‘ Y’kûá (sou canoa voltando pra enseada do rio)”, escrito por Ellen Lima e também lançado neste 2021 pela Editora Urutau. Este é o primeiro livro de Ellen, do povo Wassu Cocal, é mais um registro da poderosa expressão literária da diáspora indígena brasileira (e que aqui se ouça muitos ecos, especialmente da imensa poeta Eliane Potiguara). O livro é um registro breve, porém extraordinário, de uma identidade em conflito, da paisagem de um lugar em permanente busca por si mesmo: Ellen Lima é nascida e criada na periferia do Rio de Janeiro, mas passou a primeira infância em Cocal, junto ao seu povo, ao povo de seu pai e de seus parentes, e hoje vive em Portugal, onde cursa o doutorado em Modernidades Comparadas na Universidade do Minho, em Braga.

Em Ellen convivem imponentes identidades, cada qual com suas marcas: a identidade indígena, a diáspora e também a identidade de uma moradora da periferia do Rio de Janeiro: “E nas dúvidas entre Rio, periferia, aldeia e mundo; ficava eu, então, dentro de mim e da escrita. Escrever sempre foi um jeito de externar a melancolia de uma alma que não consegue juntar tantos fragmentos”, escreveu no posfácio.

Em “Ixé Ygara”, a poeta começa a identificar e colher esses fragmentos. Como se escrevesse um quebra-cabeça, cuja imagem final é um espelho. Ellen se volta, nesse livro de estreia, para sua origem indígena, e a partir dela lê o mundo, as tragédias e as potências. Por isso é frequente nesta obra a mistura entre a língua portuguesa e o Tupi. “Aprendi que antropofagia não se escolhe. Ou a gente devora, ou é devorado. E é bom engolir uma língua dentro da sua língua”, escreve Ellen, também no posfácio. Me perdoe Oswald e todos os signatários do Manifesto Antropófago, me perdoe Caetano e os tropicalistas, mas a expressão literária da diáspora indígena brasileira está reescrevendo toda e qualquer antropofagia, e ela é bem diferente do que estudamos, imaginamos, lemos e ouvimos. Ela é muito melhor.

[jr.bellé] – originalmente publicado no ANA (Agência de Notícias Anarquistas)

Poesia anarquista

“Faune”, poema visual de Joan Brossa

Este artigo tem um título problemático, é preciso reconhecer. O termo “anarquista” aqui é usado de maneira desavergonhadamente genérica, o que é no mínimo questionável. “Anarquista” pode se referir tanto à poetas engajados no movimento (e que publicaram poemas em jornais canhotos), quanto ao tema da revolução libertária e até mesmo a temas importantes para a luta socialista.

Um dos mais importantes guardiões da memória libertária brasileira atende pelo nome de Edgard Leuenroth: jornalista, tipógrafo e fundador de inúmeros periódicos importantes como A Plebe, A Folha do Povo, Ação Direta e etc.

Durante quase toda sua militância, Leuenroth colecionou os registros do movimento que fez parte, e como homem das letras, deu especial atenção à literatura e à poesia. Desde 1900, e por cerca de cinco décadas, ele catalogou poemas com temáticas anarquistas publicados na imprensa operária e livre-pensadora. Nem sempre eram poemas exaltadores ou que propunham um didatismo ideológico, em sua maioria eram singelos versos de protesto.

O que dá o tom à compilação de Leuenroth é sua fonte de pesquisa, a imprensa operária, em que apenas companheiros e camaradas eram convidados a publicar. É um recorte temático que favorece a inclusão de diferentes matizes da esquerda revolucionária. Entre os nomes mais recorrentes estão poetas notoriamente anarquistas: Neno Vasco, José Oiticica, Gigi Damiani, Afonso Schmidt, Raymundo Reis.

Para quem se interessar pelo compilado de Leuenroth, há uma pequena seleção dele no livro A poesia anarquista brasileira, de Yara Aun Khoury, publicada pela editora Monstro dos Mares. Ou simplesmente clica aqui e baixa uma versão em PDF.

Foto do catálogo da Editora Monstro dos Mares

Os esteios
Para efeitos de generalização, a que esse artigo é afeito, incluo por conta própria, e à deriva de Leuenroth, uma terceira leva de poesia anarquista: aquela produzida por quem tem afinidades sinceras aos ideais libertários, mas não está vinculado a nenhuma organização. São simpatizantes, apoios -  eu os chamo aqui de esteios.

Esteio é algum material, em geral madeira ou ferro, feito para escorar alguma coisa que pode cair, como a parede de uma casa ou a coluna de uma greve. É também como se nomeia alguém que ajuda, apoia, ampara outrem.

Me parece que no eco das vozes desses poetas esteios estão os gritos de muitos poetas engajados. Nas suas entrelinhas está o encanto revolucionário, e através delas ele chegará a mais olhos, despertará chamas impensáveis, inspirará gente distante. A ideia anarquista avança fronteiras se nutrindo do que o próprio anarquismo se nutre: do apoio mútuo, da solidariedade e da diversidade. A poesia anarquista abraça esses três campos - temático, engajado e seus esteios - e ainda que não formem um volume único e homogêneo, todos os três são capítulos de uma mesma obra.

Arquivo de Jaume Maymó: “Joan Brossa a la 2a Fira de Teatre al carrer de Tàrrega”, 1983

Brossa
Para ser mais internacionalista, e manter esse artigo no cordel libertário, exemplifico meu argumento: Joan Brossa, poeta e maior expoente do vanguardismo catalão dos meados do século passado.

Com apenas 18 anos, Brossa lutou a Revolução Espanhola de 1936 ao lado das forças republicanas, mormente compostas por anarquistas e comunistas. Anos depois, conhece o poeta Josep Foix, grande nome do surrealismo literário catalão. Como é de praxe, as vanguardas artísticas dessa época - surrealismo, futurismo, dadaísmo - fizeram com Brossa o que fariam com todo jovem artista daquele tempo: explodiram sua cabeça.

Brossa passou por todas essas escolas e transcendeu-as. Mergulhou na poesia escrita, depois na poesia visual, na poesia cênica e por fim na antipoesia. Seu trabalho chegou ao Brasil, provavelmente, pelas mãos de João Cabral de Melo Neto.

Cabral, além de imenso poeta, foi embaixador brasileiro em Barcelona em 1947, em Londres em 1950 (dois anos depois ele é afastado e tem que retornar ao Brasil para responder a um inquérito, acusado de subversão), em 1956 volta para Barcelona e de lá vai para Madrid e Marselha (em 1961 ele volta ao Brasil para ser ministro do Jânio Quadros, cargo que perde em 1964 com o golpe militar), parte então para Genebra, depois Berna, Assunción, Dakar e, por fim, seu último cargo de embaixada fora do país é na cidade do Porto.

Cabral, além de imenso poeta, foi embaixador brasileiro em Barcelona em 1947, em Londres em 1950 (dois anos depois ele é afastado e tem que retornar ao Brasil para responder a um inquérito, acusado de subversão), em 1956 volta para Barcelona e de lá vai para Madrid e Marselha (em 1961 ele volta ao Brasil para ser ministro do Jânio Quadros, cargo que perde em 1964 com o golpe militar), parte então para Genebra, depois Berna, Assunción, Dakar e, por fim, seu último cargo de embaixada fora do país é na cidade do Porto.

Cabral se embebedou da poesia de todos esses países. Um pouco dessa trajetória ele escreveu em poemas, que foram compilados no livro Literatura como turismo, publicado pela Alfaguara. Entre os principais responsáveis por essa bebedeira de Cabral estava Joan Brossa. Eles ficaram amigos e se influenciaram mutuamente de maneira irremediável.

Foi pelo meio campo feito por Cabral que Brossa conheceu a vanguarda Concreta brasileira, e a vanguarda concreta brasileira conheceu Brossa - o que foi um gravíssimo acontecimento sísmico tanto para a vanguarda de lá quanto para a de cá.

A poesia anarquista, encarnada aqui em muitos poemas de Brossa, um poeta esteio da mais altíssima categoria, viajou para longe, para onde a poesia engajada, publicada nos jornais militantes, jamais imaginaria.

[jr. bellé] – originalmente publicado na revista Fazia Poesia.